Teatro da Vista Alegre

Diria que por coincidência, ou por grande parte de nós andar mais desperto para esta questão, tropeço sistematicamente em notícias que mencionam a reabilitação/recuperação/devolução de pequenos teatros/cinemas à população como elementos caracterizadores das localidades onde se inserem e fortemente formadores das mesmas – recuperados nas suas mais essenciais funções: promover a cultura!

Já foi referido o Cine Doré em Madrid, o Metro Kinokulturhaus em Viena. E agora, bem mais perto, o Teatro da Vista Alegre, criado há quase 200 anos (1826) para entretenimento e valorização cultural dos trabalhadores da Fábrica da Vista Alegre. As obras de requalificação tiveram como premissa manter a essência da sala, e não falamos só da arquitectura, falamos acima de tudo de “uma sala de espectáculos que vive de e para a comunidade local”.

Repare-se na grandiosidade da intenção! E façamos o paralelo para Braga… o que interessa afinal à C. M. de Braga? Uma preservação de fachada como a grande maioria das intervenções que se observam por todo o centro histórico? Não interessam processos construtivos antigos, não interessam tipologias significativas de modos de viver de outros tempos… relembro o palacete Matos Graça na Senhora–a–Branca, completamente destruído.

Segundo a notícia do Público, a obra de recuperação do Teatro da Vista Alegre, custou “cerca de 770 mil euros (com 540 mil euros de apoio comunitário) e foi assumida pela câmara municipal de Ílhavo, entidade que passará, agora, a ficar responsável pela gestão do espaço – ao abrigo de um contrato de comodato assinado com a Visabeira, actual detentora da empresa Vista Alegre. «Queremos que seja mais uma sala de espectáculos do município, funcionando em rede com os actuais centros culturais de Ílhavo e da Gafanha da Nazaré, e o recentemente inaugurado centro sócio-cultural da Costa Nova», destacou ao PÚBLICO Fernando Caçoilo, presidente da autarquia.”

Parece-me então que a questão do dinheiro (5 Milhões!!!!) que a Câmara insiste em colocar como o principal obstáculo à devolução do S. Geraldo à comunidade, não se coloca se houver candidatura a fundos comunitários e real vontade por parte do executivo!

Ana Barbosa, arquiteta

Metro Kino Kultur Haus

Em pleno centro histórico [de Viena] foi recuperado este antigo cinema já neste século mas não se julgue que o que nasce ali, em plena cercania do lucro suposto pelo turismo frenético que uma loja ou o que, por exemplo, se propõe para o S. Geraldo em Braga acontece por ali; os protagonistas são os filmes que alimentam cabeças de locais e não locais (foco de visita de estrangeiros, até) e onde reside um arquivo (um polo da Cinemateca?), exposições (nunca é demais) e onde há um bar de apoio – apenas e chega, em vez de mais um copia? com atraso e viável?! do mercado da ribeira. Minha filha, não vou poder levar-te a ver filmes onde o pai foi. Ou vou, espero!

Rui Macedo

Experiência Única – Cine Doré, de Madrid

Madrid tem dezenas de cinemas e teatros enormes e monumentais. Não é o caso do Cine Doré. Construído nos anos 20, no bairro central de Antón Martín, fechou em 1963 e, após 20 anos de decadência, foi salvo pela Câmara. Reabriu em 1989 depois de obras de reabilitação, tornando-se, por via de um protocolo, na sala de projeção da Filmoteca Espanhola. Curiosamente o encantador Cine Doré antes de ser cinema era um salão de ócio, tal e qual o nosso São Geraldo que foi o Salão Recreativo Bracarense até à transformação de 1950.

Ir ao Cine Doré é uma experiência única e uma viagem no tempo: seja pela magia da antiguidade e sobriedade do espaço, seja pela qualidade da programação ou pelo perpetuar de um ambiente de cinema clássico e de bairro. A cafetaria na entrada, que abre ao início da tarde até à meia-noite, é um ponto de encontro dos moradores, em especial dos mais velhos, que se misturam com cinéfilos de todas as idades.

Diz o diretor da Filmoteca que nunca se consumiu tanto cinema como hoje. Até em Braga temos, de novo, cineclubes empenhados – o Cineclube Aurélio da Paz dos Reis e o Cineclube Lucky Star – e alguns projetos na área do cinema e vídeo. Será que é destruindo a mais antiga sala de cinema da cidade e licenciando uma praça de alimentação que Braga quer posicionar-se entre as “10 principais cidades ibéricas a nível económico e cultural”, tal como ambiciona o Plano Estratégico 2014-2026 tão citado pelo executivo camarário?

Para conhecer melhor o Cine Doré vale a pena ver o vídeo de 3 minutos em:

Luís Tarroso Gomes

O direito à cultura em Braga

A construção da cidade é mais do que um processo de ocupação do espaço físico, é também o reflexo de um exercício coletivo dos seus habitantes e uma expressão de cidadania. É o nosso campo de relações, como dizia Lefebvre, por isso deve guardar as nossas memórias e os nossos relatos comuns. É não só por isto, mas também, que se justifica o investimento na cultura, que nos permite usufruir de locais de encontro; é não só por isto, mas também, que tanto as autarquias como os cidadãos devem proteger os espaços que guardam a história das nossas cidades; é não só por isto, mas também, que não podemos deixar o Cinema de São Geraldo perder a sua função primordial de local ao serviço da cultura. Em Braga habituamo-nos a assistir a renovações físicas e funcionais de edifícios, ouvindo sempre como justificação a adaptação dos mesmos às “novas necessidades”. Hoje, a necessidade da nossa cidade é, mais do que tudo, tornar acessível aos seus habitantes o seu património simbólico.

No diálogo que tem gerado a reabilitação do São Geraldo, uma ideia tem dominado: em Braga, os projetos culturais são avaliados de acordo com as despesas imediatas que geram, rejeitando quaisquer argumentos que visam apostas na cultura que não tenham retorno imediato em euros. É importante dizer que esta é uma postura contrária ao que se tem assistido em várias cidades europeias, onde os investimentos na cultura têm aumentado, não apenas por motivos sociais como também económicos. A cultura, tal como outros setores convencionais, tem capacidade de gerar riqueza e emprego. O setor cultural tem um forte peso na economia de várias cidades, em vários locais do planeta, sejam elas de pequena ou grande dimensão.

O montante canalizado para a cultura é assim um importante indicador para avaliarmos a dimensão das apostas autárquicas neste domínio. Assim, a análise dos dados publicados pelo Instituto Nacional de Estatística permite-nos encontrar claras diferenças na importância que a cultura tem para algumas cidades da Região Norte. Dividindo as despesas efetuadas pelas câmaras municipais em cultura e criatividade (bibliotecas e arquivos, património cultural, livros e publicações, artes visuais, artes de espetáculo, audiovisual e multimédia, publicidade, artesanato e arquitetura) pelo número de habitantes de cada município, podemos obter os dados que estão no seguinte gráfico. Apesar de ser espetável que o Porto – a segunda maior cidade do país – e Guimarães – Capital Europeia da Cultura em 2012 – apresentem um investimento cultural maior do que o de Braga, a diferença é, na realidade, abismal. Em 2014, as despesas de Guimarães chegaram aos 40€ por habitante, o Porto passou dos 37€, Famalicão registou 25€ e Barcelos ultrapassou os 13 €. Já Braga, uma das maiores cidades de Portugal, ficou abaixo dos 6€.

Às evidências destes dados junta-se uma clara falta de quantidade e diversidade da oferta cultural em Braga durante a maior parte do ano. É verdade que a oferta cultural na cidade tem aumentado, ainda que timidamente, devido à reabertura do Theatro Circo, ao funcionamento do GNRation, e a outras iniciativas pontuais, que contrastam com uma época anterior em que a cultura em Braga passava quase exclusivamente pelas salas de cinema das grandes superfícies comerciais. Não parecem no entanto estar esgotadas as possibilidades de investir mais na cultura em Braga. De facto, investe-se pouco comparando com cidades próximas, e notoriamente a oferta cultural existente é, no mínimo, deficitária.

Uma solução para o edifício do São Geraldo não pode passar pela criação de mais um espaço meramente comercial, mas sim pela criação de um local de partilha da memória e do património comum dos Bracarenses. Em Braga, estamos todos cansados de soluções sem alternativa, da proliferação de locais vedados ao usufruto da nossa cidade, da importação de modelos pré-fabricados e da privação do nosso direito à cidade e à sua cultura. Ainda que o São Geraldo tenha saído dos hábitos culturais da cidade há muitos anos, é parte da nossa história e guarda uma enorme diversidade de relatos passados. O São Geraldo reúne hoje as condições necessárias para ser palco de muitos mais momentos futuros da cidade, isto se mantiver espaço para receber os seus cidadãos, continuando a cumprir funções de cariz cultural. Em Braga estamos todos cansados de assistir à construção de uma não-cidade, sem espaço para a nossa identidade e memória(s).

Inês Gusmán

Uma aposta no Cinema – Santiago de Compostela

O centro da cidade galega de Santiago de Compostela perdeu a sua última sala de cinema quando, em 2013, a sala do Valle-Inclán fechou as portas por alegada falta de viabilidade financeira do negócio. Foram várias as vozes que se levantaram para reclamar o regresso do cinema ao centro da cidade, pois apesar de existirem outros espaços com oferta pontual de filmes, faltava um local com exibição sistemática, fora da grande superfície comercial da cidade – As Cancelas. É neste contexto que um grupo de quatro pessoas decide levar adiante a vontade da comunidade, e transformá-la num projeto cultural.

Criaram no ano de 2014 uma cooperativa, com a proposta de construir um cinema no centro da cidade, ocupando uma parte do antigo Cinema O Capitol. O projeto foi financiado por donativos pessoais de habitantes de Santiago de Compostela e por fundos europeus FEDER. Em março de 2015, o NUMAX abriu as suas portas num local que conta com uma sala de cinema, uma livraria e um estúdio de desenho gráfico e produção áudio-visual – com o objetivo de que a “integração e a cooperação destas três áreas criasse um local de encontro e intercâmbio para a cidadania”.  Hoje em dia o Numax é um local de habitual encontro dos cidadãos de Compostela, com uma programação de filmes alternativa aos centros comerciais. Conta com 4 sessões diárias dinâmicas com uma capacidade de atração assinaláveis. Em entrevista ao El Correo Galego, Carlos Hidalgo, um dos fundadores do Numax, disse: “decidimo-nos juntar para trabalhar num projeto comum e oferecer à sociedade uma sala de cinema no centro da cidade, algo que nós e muitos habitantes sentíamos falta”.

Em Santiago de Compostela, uma cidade com pouco mais de 95 mil habitantes, proliferam os locais cuja função é o convívio cidadão, onde se respira cultura própria e onde a fusão entre a cultura galega e a de outras partes do mundo é visível. Em Compostela, uma nova sala de cinema foi possível, não graças a cálculos sobre lucros futuros, mas sim graças a uma reivindicação cidadã do direito a ter locais de convívio e de usufruto cultural.

Para saber mais sobre este projeto:
“O centro de Santiago contará cunha sala de cine en versión orixinal”
NUMAX

Inês Gusman