S. Geraldo: demolir ou reabilitar? TER 5 ABR, 21h30 Café Vianna

Procurando-se a informalidade, o debate terá lugar no Café Vianna esta terça-feira, dia 5, às 21h30. A entrada é livre, convidando-se todos os cidadãos a participar na discussão.

Convidados:
.João Paulo Miranda Guedes, APRUPP – Associação Portuguesa para a Reabilitação Urbana e Proteção do Património
.Maria Manuel Oliveira, arquiteta
.Manuel Miranda, urbanista
.João Aidos, gestor cultural e engenheiro especialista em Mecânica de Cena (participação via skype)
.Câmara Municipal de Braga (não confirmada)

O projecto apresentado no início de Fevereiro para o S. Geraldo, em Braga, tem gerado controvérsia ao longo das últimas semanas. Recentemente foi proposta pelo seu proprietário, a arquidiocese de Braga, uma mudança completa de programa – com o objectivo de construir uma praça de alimentação com hotel – que obriga à demolição deste equipamento centenário, apenas sobrevivendo a fachada original. Esta solução tem causado viva polémica na cidade desde logo porque tem sido anunciada pelos promotores e pela Câmara Municipal como uma reabilitação urbana de um edifício do centro histórico. Por outro lado, a demolição contraria todos os documentos que previam a reabilitação efetiva da sala de espetáculos, bem como a expetativa criada com o recente concurso de ideias promovido pela Câmara Municipal que incluía o S. Geraldo (e cujos resultados foram apresentados em Janeiro – os 3 premiados preveem a manutenção do S. Geraldo como equipamento cultural). Uma demolição, que é um ato irreversível, deve ser bem ponderada.

O S. Geraldo atual resulta da adaptação a sala de cinema do antigo Salão Recreativo construído em 1916/24. O cinema manteve, contudo, o palco original, facto que lhe permitiu funcionar sempre como segunda sala de espetáculos de Braga e receber os mais variados eventos culturais, associativos e políticos até ao seu encerramento definitivo em meados dos anos 90.

Mangualde usa PEDU para recuperar CineTeatro

Ontem foi notícia que o Plano Estratégico de Desenvolvimento Urbano de Mangualde vai servir para requalificar o CineTeatro, tendo estabelecido uma parceria com o Ministério da Cultura.
“São exemplos como este, que a Câmara de Mangualde nos dá, que têm de ser seguidos um pouco por todo o país. É nesta lógica que, apesar da escassez de recursos orçamentais que o Ministério da Cultura passa, queremos articular o nosso trabalho com as autarquias e a Câmara de Mangualde é um parceiro do Ministério da Cultura, numa obra que tem justamente a ver com a estratégia que procuramos seguir ao longo do país e deve ser dada como exemplo a muitas outras regiões do pais”, disse o Ministro da Cultura
Que exemplo dá Braga ao País?

O Plano Estratégico de Braga

O Plano Estratégico ambiciona que Braga esteja no top 10 ibérico daqui por 10 anos, incluindo a nível cultural. Creio que o objetivo é sério. Mas não vamos chegar lá se não trabalharmos bastante nesse sentido porque a concorrência começa a poucos quilómetros daqui.

O que é que significa em termos culturais estar no top 10? Poderemos continuar a não ter um espaço para grandes exposições (como têm Guimarães ou Famalicão?) Poderemos continuar a não ter uma segunda sala de espetáculos funcional, ainda que mais modesta? E se agora destruirmos a sala do S. Geraldo e daqui por 5 anos afinal fizer falta? Faz-se outra?

O setor da cultura tem um peso significativo na economia nacional e originou, por exemplo em 2006, um valor acrescentado bruto superior ao da indústria têxtil. A cultura cria postos de trabalho e é a marca distintiva de uma cidade. Numa altura em que Braga, ao contrário do que se faz em todo o lado, prevê a demolição da sua segunda sala de espetáculos quase centenária – S. Geraldo, antigo Salão Recreativo – é importante entender se é ou não um ativo importante agora ou nos próximos anos. É isso que a Velha-a-Branca vai discutir hoje com 25 agentes culturais da cidade. Não será um debate convencional. De forma a chegar a conclusões, seguirá um modelo de workshop e tem, por isso, necessariamente lotação limitada.

Luís Tarroso

Um Espaço Cultural

Aproveitando os posts do Luís Tarroso Gomes, quero também dar a minha “achega” na questão do S. Geraldo e da sua eventual “recuperação”.

Ainda me lembro de ter frequentado este espaço e de ter ainda visto alguns filmes (se bem que poucos porque ainda era muito novo). Quando fechou não me importei muito – ainda era novinho e pouco sensível a questões desta natureza.

Nos últimos anos, de vez em quando, lembro-me do velho S. Geraldo – aquele sítio tão simpático e tão digno onde tantos bracarenses usufruíram de cinema e convívio durante tantos anos, e penso: “Isto é que valia a pena recuperar e fazer aqui renascer alguma da magia do passado”. Curiosamente, e ainda bem, há gente que volta a pensar nisso.

Infelizmente, a Câmara Municipal actual terá outros planos. E, na minha opinião, são planos muito pobres e com falta de visão a médio e longo prazo. Uma praça da alimentação? A sério?

Meus senhores, nem tudo é comércio, nem tudo pode ser convertido em espaço de restauração. A vida e alma de uma cidade não pode depender apenas de viabilidades económicas imediatas e de benefícios rápidos. Num local tão central e histórico, temos de investir num emblema histórico, num enriquecer de uma alma colectiva que temos de preservar. São valores que não têm expressão numérica imediata.

Como também foi sugerido pelo Pedro Alpoim: recupere-se a infraestrutura e o bar respeitando as linhas originais. Crie-se um festival de cinema anual e temático!

Adapte-se o espaço a novas realidades (estou aqui já a fazer uma concessão) como abrir a porta para se usar o auditório para eventos de vários tipos: cinema (claro, seria o ADN do espaço), música ao vivo, teatro (que bem precisa de alternativa ao Theatro Circo para os grupos e companhias amadoras) e até eventos mais avulsos, como sessões empresariais (mediante avaliação prévia e aluguer).

Não sou perito em viabilidades económicas, mas insisto: o lucro não é tudo. Há um valor imaterial que podemos recuperar – os bracarenses mas não só: todos os visitantes, sejam eles portugueses ou estrangeiros.

Alexandre Fernandes

Inúmeras possibilidades

O mítico edifício São Geraldo dispensa qualquer tipo de apresentação. Uma referência na cidade de Braga mesmo estando fechado há décadas. Pertence à Arquidiocese de Braga, que é a responsável pelo projecto de reabilitação, mas a intervenção proposta será executada em parceria com um conjunto de empresas. O arcebispo de Braga, D. Jorge Ortiga, sublinha a intenção de manter “a cumplicidade com a cultura” na nova fase da vida do antigo cinema, mas os responsáveis pelo projecto entendem que seria inviável que o edifício depois de recuperado fosse sustentável apenas com uma função cultural, optando, por isso, por este projecto multifuncional.

Intenção de manter a cumplicidade com a Cultura…
É assim que a cultura hoje em dia é vista, um parente pobre que se não tiver a capacidade de ser auto-sustentável então não vale a pena. Mas que grande erro. Numa cidade inundada de restaurantes, lojas shoppings, pensar no São Geraldo para fazer mais do mesmo é destruir a história do São Geraldo e não compreender que é através do nosso passado que valorizamos o futuro. É a perigosa tentação comercial de concentrar tudo num mesmo espaço. Não quero discutir a proposta de arquitectura que deve ser salvaguardada, mas sim a função escolhida para o local. Um São Geraldo merece muito mais e não é por estar fechado há mais de 20 anos que qualquer programa serve.

Na minha óptica existem inúmeras possibilidades válidas para o São Geraldo necessárias para a desenvolvimento e crescimento da cidade e, todas elas passam pela forte aposta na oferta cultural; um Centro Cultural à semelhança de Guimarães, um Centro de Arte Contemporânea, uma Casa do Cinema à semelhança do que está a ser feito no Cinema Batalha no Porto, um Museu da Cidade, um Museu do Design, etc.
São apenas algumas opções credíveis para o progresso de Braga ou então ficamos pelo “cheiro a fritos”…

Pedro Vinagreiro, arquiteto

públicos

Obviamente que prefiro o S. Geraldo como uma infraestrutura cultural. Mas neste momento apenas faço perguntas, pois seria necessário perceber de que forma a mesma infraestrutura cultural se enquadraria na cidade:

a) que tipo de equipamento cultural? para que áreas? sendo o GNR já ‘polivalente’, seria necessário mais um nesse âmbito? ou apostar em nichos culturais? só para cinema, ou como espaço de artes performativas… há público?

b) não havendo público, pode-se apostar na criação de público. isso demora tempo e custa dinheiro. há essa disponibilidade? há dinheiro? de onde? sendo que o edifício não é público, estará a arquidiciocese disposta a arriscar os seus fundos para algo ‘incerto’? talvez com subsidiação estatal seja mais fácil. Essa responsabilidade seria da CMB ou do MC?

c) imaginando que se apostaria num nicho, que me parece mais plausível, é possível conquistar público da região. porém, para conseguirmos trazer público, a programação teria de ser fortíssima – mais uma vez, há dinheiro para essa programação?

Como me parece que há vontade mas não há dinheiro, seria essencial, num primeiro momento, reabilitar o edifício. E de forma a garantir fundos, não ficaria ofendido se uma solução intermédia fosse encontrada: parcialmente tasco, parcialmente dedicado à cultura. Já emocionalmente, obviamente vi naquele espaço muitos filmes durante a minha infância – foi a primeira sala de cinema onde entrei. num mundo ideal, deveria voltar apenas a ser cinema.

Num mundo mais pragmático, acenda-se a discussão e gostaria que não se tomassem decisões precipitadas. contudo, o espaço tem dono – e não somos nós. E tenho de respeitar isso.

Ivan M. Saraiva

Livraria Minhota

Se o projecto de um novo espaço cultural, com diversas valências, avançar, como muitos de nós desejámos, poderia incluir uma LIVRARIA MINHOTA. Uma livraria onde se pudessem encontrar, reunidas num só espaço, as centenas de títulos editados pelas câmaras municipais e seus serviços culturais (bibliotecas, arquivos, museus), associações, instituições de diversa ordem, edição de autor, edição marginal local, revistas (Rev. de Guimarães, Bracara Augusta, Mínia, Forum, Bol. Cultural V.N. Famalicão, Cadernos Vianenses, Estudos Regionais, Bol. Cultural Póvoa de Varzim, etc, etc). São publicações, a maior dela de grande qualidade e interesse, mas sem distribuição ou comercialização, que só se podem encontrar nas próprias localidades que as editam, e às vezes com grande dificuldade. Acho que seria um bom “nicho de mercado” com valor cultural acrescido.

Henrique Barreto Nunes, bibliotecário