S. Geraldo: demolir ou reabilitar? TER 5 ABR, 21h30 Café Vianna

Procurando-se a informalidade, o debate terá lugar no Café Vianna esta terça-feira, dia 5, às 21h30. A entrada é livre, convidando-se todos os cidadãos a participar na discussão.

Convidados:
.João Paulo Miranda Guedes, APRUPP – Associação Portuguesa para a Reabilitação Urbana e Proteção do Património
.Maria Manuel Oliveira, arquiteta
.Manuel Miranda, urbanista
.João Aidos, gestor cultural e engenheiro especialista em Mecânica de Cena (participação via skype)
.Câmara Municipal de Braga (não confirmada)

O projecto apresentado no início de Fevereiro para o S. Geraldo, em Braga, tem gerado controvérsia ao longo das últimas semanas. Recentemente foi proposta pelo seu proprietário, a arquidiocese de Braga, uma mudança completa de programa – com o objectivo de construir uma praça de alimentação com hotel – que obriga à demolição deste equipamento centenário, apenas sobrevivendo a fachada original. Esta solução tem causado viva polémica na cidade desde logo porque tem sido anunciada pelos promotores e pela Câmara Municipal como uma reabilitação urbana de um edifício do centro histórico. Por outro lado, a demolição contraria todos os documentos que previam a reabilitação efetiva da sala de espetáculos, bem como a expetativa criada com o recente concurso de ideias promovido pela Câmara Municipal que incluía o S. Geraldo (e cujos resultados foram apresentados em Janeiro – os 3 premiados preveem a manutenção do S. Geraldo como equipamento cultural). Uma demolição, que é um ato irreversível, deve ser bem ponderada.

O S. Geraldo atual resulta da adaptação a sala de cinema do antigo Salão Recreativo construído em 1916/24. O cinema manteve, contudo, o palco original, facto que lhe permitiu funcionar sempre como segunda sala de espetáculos de Braga e receber os mais variados eventos culturais, associativos e políticos até ao seu encerramento definitivo em meados dos anos 90.

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comentários dos signatários

A cultura é tudo o que resta depois de se ter esquecido tudo o que se aprendeu. Selma Lagerlof Ana Nogueira
A demolição e destruição do Cinema S. Geraldo é um erro irreparável. A sua recuperação e aproveitamento para actividades culturais como: cinema, teatro e actividade musicais amadoras, seria uma das muitas alternativas culturais para a cidade. António Manuel Lobato de Azevedo Costa
A DEMOLIÇÃO NÃO É ALTERNATIVA! Fim aos assassinatos de património em Braga! Helena Isabel Carneiro Gonçalves
A DEMOLIÇÃO NÃO É ALTERNATIVA! Vamos reabilitar património! Hugo Carvalho Araújo
A memória faz a identidade, a identidade une, a união não tem preço, mas a atomização faz-nos desaparecer. Francisco Manuel Calado Gomes Abrunhosa
A verdadeira finalidade e com todo o sentido desta sala com muita história na cidade de Braga, deve ser as artes (musica, cinema, teatro, etc…) Paulo Armindo Gomes Ferreira Casais
Adoro aquele cinema. João Pedro Santos Quartau
Adoro aquele cinema. Ana Carolina Reis e Ribeiro Santos
Apelo a quem de bom coração, aquele que vê Portugal como um todo, como um futuro próspero de história e património que olhe para este caso absurdo de demolição de uma Sala de espectáculos Centenária pertencente a todos os Portugueses. Falamos de história mundial, da história de Portugal, da história de BRACARA AUGUSTA, cidade fundada muito antes do nascimento de Cristo. Apela-se que o Capitalismo feroz, que a cor do dinheiro não vença, que a vontade da maioria de um povo prevaleça sobre qualquer projecto sem nexo nem ideais. Hugo Correia
Apesar de inactivo durante muitos anos, é uma sala que reaberta traria mais cultura à cidade, mantendo a sua estrutura, manteria a história da sala. Manuel Augusto Castiço da Silva
Apoiado! Hélder Ribeiro
apoiar esta petição é seguir uma boa causa pública e um bem comum. carlos alberto barros zão
Apoio a petição Armando Manuel Barreiros Malheiro da Silva
Apoio incondicionalmente a manutenção desta importante sala de espetáculos, que penso tem ainda muito a dar à nossa cidade. José Manuel Moreira Ferreira
assino pela defesa do Património!!! maria da graça abreu fernandes de freitas
Assisti a vários espetaculos promovidos pels fábrica Maconde nos anos 70. Tenho memórias especiais. Gostaria que essa sala fosse salva. Braga é uma cidade jovem, cultural, numa zona central do Minho. De certeza que alguem podera renovsr essa sala e fazer do S.Geraldo um ponto cultural. Laura Eiras
Braga Manuel António Grilo Carvalhosa
Braga precisa de espaços culturais, não de (mais) shoppings! João Rafael Araújo de Terroso Loureiro
Braga precisa de investimento na cultura. Ana Maria da Costa Vieira Gonçalves
Cada vez mais, os espaços públicos devem ser devolvidos aos cidadãos da Polis, para que deles fruam e, em democracia, na Ágora, (Bracara Augusta) tomem decisões políticas, em conjunto com os órgãos e instituições locais, que privilegiem as dimensões: histórica, patrimimonial, cultural, social, económica e ambiental. Margarida Maria Correia Caneca Reis Vilarinho
concordo plenamente com a petição Francisco Manuel Braga de Melo
Demolir não devia sequer estar em hipótese para o S. Geraldo! Como artista bracarense apoio a recuperação do edifício, visto que o mesmo se encontra em condições mais do que óbvias para pequenas REPARAÇÕES. Acho que a demolição e, eventualmente, a posterior criação de um novo projeto para o lote seria muito lucrativo para os senhores que iriam tratar do assunto, mas também é bom pensar na cultura e não só no dinheiro e interesses rabetas que só acabam por arruinar a cidade aos poucos. Espero bem que ponham as mãos na cabeça e pensem melhor sobre o assunto porque afinal Braga não é só igrejas e centros comerciais, acho eu. Israel dos Santos Machado
Depois dos atentados urbanísticos cometidos na zona envolvente, é fundamental defender o património simbólico e cultural do S. Geraldo. Em nome, também, (re)qualificação arquitectónica da praça em que se insere e da cidade de Braga. Isabel Cristina Pinto Mateus
Devemos, nós, os atuais, preparar os bens do passado para as tendências do futuro, sempre com crescimento digno, preservando as raízes passadas pelas memórias de todos nós. Por favor, não deixem cair o sacrifício dos nossos antepassados! Ângelo de Freitas (Caldas das Taipas) angelo manuel ribeiro de freitas
é necessário preservar a história… francisco ferreira vieira
Está na altura dos Cidadãos condicionarem efetivamente a política Bracarense, sem que sejam confrontados com factos consumados, falta de visão estratégica, submissão ou não utilização das ferramentas ao dispor do executivo Municipal, lavando as mãos de autênticos danos ao n/ património cultural. Há que defender o que merece ser defendido, e impulsionar o que deve ser impulsionado ! Hermenegildo Elísio de Araújo Mota Campos
Este espaço faz falta à cidade de Braga a nível cultural, cinema, teatro, música, exposições, reuniões, congressos, etc. Não como centro comercial, de restauração… E preservado tal como está neste desenho, não demolido! Mara Helena Ferreira da Silva Dória
Foi no Cinema S. Geraldo que vi o meu primeiro filme no cinema Quando os dinossauros dominavam a terra. de 1970. Também REDS e ET o extra-terreste. Filmes que me marcaram e que estão ligados para sempre ao Cinema S. Geraldo. Esta sala é uma referência para a cidade e para muitos bracarenses que, como eu, se sentem ligada a ela afectivamente. É nosso dever defender a sua preservação. Maria Júlia dos Santos Mourão do Vale
Impensável levarem esta demolição avante…. Vergonhoso, impensável ! Paula Marques
Já q nos é dada uma voz, usemo-la! Maria Manuela da Cunha Cerqueira
Merece o mesmo tratamento que foi dado ao Teatro Circo. Maria Fernanda Pereira Roque Pimenta
não à demolição José Carlos Jorge Pinto sousa
Não construam mais centros comerciais! Recuperar o espaço para fins culturais – cinema, teatro, etc- é o mais útil para quem vive ou visita Braga Maria Dolores Ferreira Nunes Cabral
NÃO DEMOLIR! Cláudia Alexandrino
Não destruam o que resta de cultura nesta cidade. um ponto de referência história nunca bastou a ninguém…. Maria João Pinto Salgado
Não neguem a cultura aos portugueses! Miguel Joaquim Rodrigues Fernandes da Costa
Não podemos deixar que se cometa mais um crime na nossa cidade! Temos que salvar este e outro património da nossa Bracara Augusta! Enough is enough!!! Maria José Gomes
Não sou de Braga, mas tenho amigos e família lá, por isso e porque sim assino e peço vos que assinem esta petição. Luísa Monteiro Matos
Não vamos permitir que se cometam mais asneiras nesta cidade… Luis Gonzaga de Faria Taveira Peixoto
O cinema S. Geraldo é da cidade, é património dos bracarenses. Fernando Ferreira Coelho
O S. Geraldo é uma sala de espetáculos situada no centro histórico da cidade bimilenar de Braga, e faz parte do património cultural dos bracarenses. Foi seguramente a sala onde vi mais cinema em toda a minha vida e como bracarense desejo que esta memória não se apague através de uma adulteração atípica que transforme este espaço em algo puramente consumista e descaraterizadora em relação às funções para que foi criado. Carlos Jorge Vilela marques
O S. Geraldo não pode ser demolido pode e deve ser remodelado, mantendo a traça original e a principal finalidade: sala de cinema. A.Costa A Oliveira Costa
Pela não destruição! Ruben Miguel Braga da Silva
Pelo exterior não se imagina as boas condições em que ainda se encontra o seu interior. Não deveriam demolir tão boa sala de espetáculos mas sim recuperá-la! Maria Carolina Rodrigues de Queiroz Miranda
Preservar o nosso património. Maria de lourdes david batista
Preservar o que está feito e tem HISTÓRIA! ❤ Com amor! Ilda Maria Milhazes Carvalho Ferreira
Preservar um espaço cultural na minha cidade! Carmo Roby Amorim
Queremos mais cultura em Braga! João Manuel Mouta Gomes
S. Geraldo foi a primeira vez que fui ao cinema, e acho aserio que Braga tem muita cultura e faltam espaços de qualidade, por favor porque destruir cuando se pode construir uma cidade melhor! Vitor Emanuel Pimenta Vieira da Silva
Sala de espetáculos mítica Isabel Bé Pavão Nunes
Sim, se o edifício está ainda em bom estado será bom que seja recuperado e lhe seja dada utilização apropriada. Domicília Maria Correia da Costa
Soy chileno, pero viví en Braga y pretendo regresar. No quiero que cometan el mismo error que Notros en Chile y destruyan su patrimonio en nombre de las escusas más banales. José Domingo Cortínez
Um ícone da Braga, não o arrasem, por favor! Henrique Moura
Uma casa de espectáculos, que, apesar de estar encerrada há vários anos, o S. Geraldo, faz parte da memória colectiva dos bracarenses. É, na minha opinião, um crime demolir aquele edifício, a favor de interesses económicos, quando a cidade de Braga carece de motivos culturais que nos enriqueçam a todos. Manuel da Conceição Mendes
Vamos encontrar uma solução para manter esta sala mítica de Braga. Hermenegildo Manuel Guimaraes
Vejam a solução do teatro São Jordão em Guimarães! Carina Filipa Vieira Martins Antunes Gomes
Viva o S. Geraldo! Anabela Sofia Alves de Meira

Pela dinamização cultural em Braga

O Cinema S. Geraldo guarda uma parte da memória de Braga, tem as condições para ser o equipamento com funções culturais que a cidade tanto precisa e para ser palco de muitos momentos em comum dos bracarenses. Pela dinamização cultural em Braga e pelo nosso direito ao espaço da cidade, não deixemos que se transforme o S. Geraldo em mais um espaço sem interesse para os bracarenses. Quantas mais vozes se juntarem por estes direitos, mais perto estaremos de alcançar uma cidade de Braga apropriada às necessidades dos seus habitantes. ‪#‎sgeradocultural‬ avança e já é Público

Inês Gusman

Grandes Opções do Plano da CMB 2016

“Extrato das Grandes Opções do Plano da Câmara de Braga para 2016: “Acrescendo aos projetos de natureza infraestrutural que serão concretizados em 2016, e que não se cingem ao investimento direto municipal (ainda que com eventual apoiode instrumentos financeiros de estímulo à regeneração urbana disponibilizados por este Município, como será o caso do Cinema S. Geraldo, o Edifício do Largo do Paço, o Hospital de S. Marcos, entre outros)…”. Leram bem, Cinema S. Geraldo, não mercado gourmet…
‪#‎sgeraldocultural‬  ” Paula Nogueira12734194_10206748579966387_584089351285143902_n

Salvar o S. Geraldo

Conhecemos há alguns dias o projecto para o antigo cinema S. Geraldo apresentado pela Diocese de Braga, sua proprietária. O projecto, independentemente das suas virtudes, nomeadamente a de recuperar um grande edifício de centro histórico, contempla um elemento de absoluta importância, que os cidadãos de Braga e da região não podem ignorar. A concretizar-se, Braga perderá a sua primeira e mais emblemática sala de cinema que, apesar de se encontrar fechada há cerca de vinte anos, mantém, praticamente, todos os seus aspectos funcionais.

Sendo certo que ao proprietário está conferida toda a legitimidade para decidir o futuro do edifício, não deixa também de ser verdade que este não deve ignorar o sentimento de toda uma comunidade que quer ver valorizado e recuperado um local que tanto espaço ocupa na memória colectiva.

No mesmo sentido, ao município não restará apenas o papel de espectador. Muito menos poderá refugiar-se no papel de mero fiscal ou emissor de licenças. Não duvido que não existam soluções fáceis, nem certezas absolutas, mas estou convencido de que é possível fazer muito mais. O Presidente da Câmara não pode, por isso, fazer ouvidos de mercador, não pode ignorar as vozes que se levantam e se preocupam com o futuro do cinema S. Geraldo. Se assim fizer, também ele ficará na história como responsável pela decisão que levará à perda da histórica sala de cinema.

Mais, aceitar a demolição do cinema São Geraldo não se trata apenas de um acto de irreparável perda para o património social e cultural. Trata-se, mais ainda, de uma oportunidade perdida para devolver à cidade uma sala de espectáculos que poderia afirmar-se como um espaço alternativo e multifuncional, facilmente adaptável aos mais variados tipos de iniciativas, complementando assim a oferta do Theatro Circo.

Ora, Ricardo Rio, que até inscreveu no seu programa eleitoral o “reforço do relacionamento com a Diocese”, tem aqui uma óptima oportunidade para o colocar em prática. Pés ao caminho, que se faz tarde, e, pelo que se tem lido, é o próprio Arcebispo que reconhece não ter ouvido propostas alternativas, nomeadamente por parte do município.

Outra coisa, bem diferente, é Ricardo Rio não querer intervir para alterar o projecto por, efectivamente, concordar com as ideias nele expostas, entre as quais figuram um hotel e espaços comerciais. E, se assim for, que o diga, mas que reconheça que isso é absolutamente contrário ao seu discurso de valorização dos equipamentos culturais da cidade. Aliás, há bem pouco tempo, na apresentação dos vários projectos no âmbito do concurso de ideias para a regeneração da Avenida da Liberdade, foi difundida a ideia de criação de um quarteirão cultural, no qual se incluía o cinema S. Geraldo como equipamento estratégico e, pelo que li e ouvi, a ideia terá agradado a Ricardo Rio.

Importa também perceber se Ricardo Rio acha que Braga já tem actividade cultural que chegue e equipamentos culturais suficientes. É que, se assim for, estamos ainda pior do que imaginava. Ou se, pelo contrário, tem ainda dúvidas, pode aproveitar a ocasião para se afirmar como um presidente que sabe ouvir o associativismo e as vozes da cidadania, considerando que são já vários os apelos para que a câmara intervenha no sentido de se suspender o projecto, impedindo a demolição do antigo cinema, discutindo novas ideias e eventuais soluções. É que a participação dos cidadãos na política é isso mesmo: serem ouvidos quando têm algo a dizer e serem tidos em conta. A participação não se pode resumir a um mero exercício administrativo plasmado num qualquer orçamento participativo, por muito virtuoso que este até possa ser.

Neste momento é inadiável a movimentação de todos em defesa do Cinema S. Geraldo como equipamento cultural, para que, desde já, se consiga sensibilizar a Diocese de Braga para a suspensão do projecto e o município para o seu papel interventivo na definição do modelo de cidade que queremos. Depois, virão as propostas, no respeito pelos interesses de todas as partes envolvidas, mas, acima de tudo, no garante máximo de um projecto cultural que tanta falta faz a Braga.

Carlos Almeida

a estratégia de Reabilitação Urbana

No Programa Estratégico de Reabilitação Urbana do Centro Histórico em vigor está prevista a “criação de auditório no Cinema S. Geraldo”. Aliás, este Programa municipal propõe, mais em detalhe, o seguinte: “a reconversão do Cinema S. Geraldo pretende possibilitar uma oferta qualificada no Centro Histórico de Braga de uma estrutura vocacionada para eventos – encontros, seminários, reuniões de pequena dimensão, que possam atrair as dinâmicas de outras instituições, que atualmente têm sede na cidade, mas que se localizam nas zonas de expansão”.

Como se percebe, o Programa Estratégico nem sequer é muito ambicioso e até foi feito pelo executivo anterior. Mas convém ler porque é o que vigora neste município e é o programa que orienta toda a reabilitação na ARU do centro (se houve alguma alteração recente não é pública nem foi posta em discussão pública).

Em defesa do Cinema S. Geraldo

Ao longo das últimas décadas habituámo-nos a ver o património histórico e arquitectónico da cidade ser degradado e “requalificado” sem critério, o que conduziu, em muitos casos, a perdas irreparáveis para a cidade e para a comunidade bracarenses. As reconversões dos edifícios monumentais da cidade foram invariavelmente mal sucedidas porque guiadas por estratégias de lucro de curto-prazo que acabaram por se refletir em avultados prejuízos materiais e imateriais para a cidade.

Poderíamos citar os exemplos do Palacete Matos Graça, o antigo edifício dos Correios, as construções da Rua Justino Cruz ou o património arqueológico da época romana repetidamente desprezado e destruído tanto em intervenções públicas como particulares. Em todas as situações, a comercialização rápida dos espaços prevaleceu sobre a valorização estratégica de médio e longo-prazo, deixando para a cidade uma pesada e triste herança em termos arquitectónicos, urbanísticos e, muitas vezes, sociais e culturais.

O modelo de “shopingzificação” (perdoem o neologismo) dos centros das cidades resultou na produção de espaços híbridos, apelativos pelo factor de novidade durante alguns meses, que acabam por se converter em autênticos territórios de descontinuidade na fruição dos espaços urbanos. Primeiro ficam vazios de pessoas e, consequentemente, de iniciativas económicas viáveis para depois se transformarem em espaços degradados, problemáticos e sem qualquer utilidade coletiva.

O Cinema São Geraldo foi inaugurado no dia 1 de Junho de 1950, tratando-se da primeira sala exclusivamente dedicada ao cinema que surgiu na cidade de Braga. Para além do monumental Theatro Circo, é a única sala de espetáculos de Braga que tem projeção e importância verdadeiramente nacionais. Durante os anos em que esteve fechado e votado ao abandono, várias vozes se levantaram em defesa do Cinema São Geraldo mas a verdade é que nunca se realizou um debate sério e ponderado sobre as diferentes alternativas possíveis para o aproveitamento do seu potencial enquanto equipamento cultural.

Se Braga se quer assumir como uma referência económica e cultural na Península Ibérica, é urgente que as opções políticas não promovam uma obstinada repetição de alguns erros do passado. Tal como as políticas de estímulo ao desenvolvimento económico local promovidas pela Investe Braga em conjunto com a Universidade do Minho têm seguido os exemplos mais bem sucedidos internacionalmente também as opções no domínio patrimonial e cultural se devem inspirar nos programas de reabilitação que fizeram de cidades de média dimensão uma referência no panorama europeu.

Preservar o património, resistir à “shopingzificação” dos centros urbanos e criar ou reabilitar equipamentos culturais que coloquem a cidade no patamar que todos ambicionamos são a chave para o sucesso. No caso do Cinema São Geraldo, a situação é muito facilitada pelo facto do proprietário ser a Igreja Católica, uma instituição que tem uma longa experiência na preservação do património histórico e arquitectónico, que não tem uma visão de curto-prazo na valorização dos seus recursos financeiros e que tem relações privilegiadas com o poder municipal.

Haja vontade política para não repetirmos os erros do passado.

Publicado no Correio do Minho.

São Geraldo, o cinema que morreu duas vezes?

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Já que tanto querem fazer um mercado tipo Bom Sucesso, privilegiando o comércio e espaços de alimentação, por que razão não o fazem mesmo ao lado,no tenebroso Shopping Santa Cruz que está às moscas e em acelerado processo de degradação,com uma fachada que envergonha o Largo Carlos Amarante. Aí sim, e no âmbito da recuperação dos centros comerciais de 1ª geração, poderia ficar a tão desejada praça de alimentação, o mercado gourmet e o tal hotel, salvaguardando as pouquíssimas lojas de qualidade que lá existem (aliás só me estou a lembrar de uma).

Com algum esforço até se poderiam arranjar condignas instalações para a Junta de São Lázaro. Agora o São Geraldo, esse deixem-no para aquilo para que foi criado há quase um século: a cultura, sob todas as suas formas, e, fundamentalmente, o cinema, que ocupa um papel central na sua história, que lhe deu o nome, e que perdurará para sempre na memória de tantos bracarenses. Parafraseando o título de um filme de Alfred Hitchcock, seria muito triste que no futuro olhássemos para o São Geraldo como o cinema que morreu duas vezes.

José António Coimbra Barbosa

A pior solução…

O recém-anunciado projeto para o velho cinema S. Geraldo é uma boa notícia? Não propriamente. O que foi anunciado faz sumir de vez qualquer ideia de recuperar a enorme sala para fins culturais. Independentemente da qualidade arquitetónica do projeto apresentado, apenas se manterá vagamente uma memória do espaço antigo. Na prática, será uma praça de alimentação com um hotel. Chamar-lhe mercado cultural é, por isso, uma ilusão. Seria o mesmo que transformar o relvado e a pista do estádio 1º de Maio num parque de estacionamento e anunciar que a cidade ganhava um equipamento desportivo.

Não confundamos, claro, o interesse da cidade com o do proprietário. O dono – que no caso é a arquidiocese – não conseguiu manter o cinema a funcionar comercialmente e tem todo o direito de para lá imaginar os projetos que quiser e anunciá-los publicamente. Diferente é saber se a cidade acha esses projetos relevantes e se não tem outros que se lhes sobreponham.

Desde 1896 que se veem imagens em movimento em Braga. O Cinema São Geraldo foi, porém, a primeira sala bracarense especificamente destinada a esse fim. A estreia em 1950, com o filme “Cruzeiro de Férias” (Luxury Liner), terá impressionado pelo luxo, pela nitidez da imagem e pela qualidade do som. Dispunha de tribuna e plateia com cerca 850 lugares, funcionou até aos anos 90 e miraculosamente ainda lá está hoje, decadente mas pouco alterado.

E também convém não exagerar: o São Geraldo não é um edifício monumental e é produto da cidade enfadonha que Braga era há 70 anos. A sua relevância hoje reside no potencial enquanto equipamento já construído, num ambiente dos anos 50 que se perpetuou e na localização estratégica junto ao Theatro Circo. E nunca é demais relembrar o gravíssimo erro de restauro do Theatro Circo: construiu-se uma dispendiosa segunda sala subterrânea que, todavia, por razões estruturais jamais poderá funcionar em simultâneo com a sala principal (num país decente, quem assim desperdiçou dinheiros públicos, teria de se explicar muito, muito bem).

Numa altura em que há verba e instrumentos disponíveis para a regeneração urbana, o São Geraldo podia ser, pelo menos, essa segunda sala simultânea do Theatro com pouco investimento. Isto se não se equacionassem projetos mais ambiciosos como um centro cultural público (como há um mês defendia o Fernando Coelho no Entre Aspas), municipal ou da freguesia, ou até privado (seguindo o exemplo do São Mamede em Guimarães lembrado em tempos pelo Rui Ferreira). Ou uma intervenção mais arrojada devolvendo-nos o equilibrado largo setecentista através da reposição da imponente fachada do Convento dos Remédios.

Mais uma vez, a Câmara mostra-se uma entidade amorfa, não sendo capaz de imaginar nem de discutir os inúmeros cenários com a cidade e desperdiçando o potencial daquele espaço. Para que serviu afinal o concurso de ideias? E para que vai servir o Conselho Estratégico para a Regeneração? Para entreter?

O Cinema São Geraldo pode ser muitas coisas – e esta é das piores para Braga. Um Executivo preocupado, se nada conseguisse fazer para impedir o desaparecimento de um espaço cultural, ao menos mostrava-se descontente. Por isso, é lamentável ver a Câmara a dar a bênção a mais uma destruição definitiva na cidade. Ou como dizia há dias Ricardo Araújo Pereira, imitando uma análise liminar de Tino de Rans: “eu tinha bregonha!”

FOTO: imagem da sala principal do São Geraldo em 2005 (editada para sobrepor o fotograma na tela)
TRAILER: regressar ao São Geraldo de 1950 a bordo do Luxury Liner www.youtube.com/watch?v=jzKVwA9VjdI

Luís Tarroso Gomes