O Plano Estratégico de Braga

O Plano Estratégico ambiciona que Braga esteja no top 10 ibérico daqui por 10 anos, incluindo a nível cultural. Creio que o objetivo é sério. Mas não vamos chegar lá se não trabalharmos bastante nesse sentido porque a concorrência começa a poucos quilómetros daqui.

O que é que significa em termos culturais estar no top 10? Poderemos continuar a não ter um espaço para grandes exposições (como têm Guimarães ou Famalicão?) Poderemos continuar a não ter uma segunda sala de espetáculos funcional, ainda que mais modesta? E se agora destruirmos a sala do S. Geraldo e daqui por 5 anos afinal fizer falta? Faz-se outra?

O setor da cultura tem um peso significativo na economia nacional e originou, por exemplo em 2006, um valor acrescentado bruto superior ao da indústria têxtil. A cultura cria postos de trabalho e é a marca distintiva de uma cidade. Numa altura em que Braga, ao contrário do que se faz em todo o lado, prevê a demolição da sua segunda sala de espetáculos quase centenária – S. Geraldo, antigo Salão Recreativo – é importante entender se é ou não um ativo importante agora ou nos próximos anos. É isso que a Velha-a-Branca vai discutir hoje com 25 agentes culturais da cidade. Não será um debate convencional. De forma a chegar a conclusões, seguirá um modelo de workshop e tem, por isso, necessariamente lotação limitada.

Luís Tarroso

Experiência Única – Cine Doré, de Madrid

Madrid tem dezenas de cinemas e teatros enormes e monumentais. Não é o caso do Cine Doré. Construído nos anos 20, no bairro central de Antón Martín, fechou em 1963 e, após 20 anos de decadência, foi salvo pela Câmara. Reabriu em 1989 depois de obras de reabilitação, tornando-se, por via de um protocolo, na sala de projeção da Filmoteca Espanhola. Curiosamente o encantador Cine Doré antes de ser cinema era um salão de ócio, tal e qual o nosso São Geraldo que foi o Salão Recreativo Bracarense até à transformação de 1950.

Ir ao Cine Doré é uma experiência única e uma viagem no tempo: seja pela magia da antiguidade e sobriedade do espaço, seja pela qualidade da programação ou pelo perpetuar de um ambiente de cinema clássico e de bairro. A cafetaria na entrada, que abre ao início da tarde até à meia-noite, é um ponto de encontro dos moradores, em especial dos mais velhos, que se misturam com cinéfilos de todas as idades.

Diz o diretor da Filmoteca que nunca se consumiu tanto cinema como hoje. Até em Braga temos, de novo, cineclubes empenhados – o Cineclube Aurélio da Paz dos Reis e o Cineclube Lucky Star – e alguns projetos na área do cinema e vídeo. Será que é destruindo a mais antiga sala de cinema da cidade e licenciando uma praça de alimentação que Braga quer posicionar-se entre as “10 principais cidades ibéricas a nível económico e cultural”, tal como ambiciona o Plano Estratégico 2014-2026 tão citado pelo executivo camarário?

Para conhecer melhor o Cine Doré vale a pena ver o vídeo de 3 minutos em:

Luís Tarroso Gomes

a estratégia de Reabilitação Urbana

No Programa Estratégico de Reabilitação Urbana do Centro Histórico em vigor está prevista a “criação de auditório no Cinema S. Geraldo”. Aliás, este Programa municipal propõe, mais em detalhe, o seguinte: “a reconversão do Cinema S. Geraldo pretende possibilitar uma oferta qualificada no Centro Histórico de Braga de uma estrutura vocacionada para eventos – encontros, seminários, reuniões de pequena dimensão, que possam atrair as dinâmicas de outras instituições, que atualmente têm sede na cidade, mas que se localizam nas zonas de expansão”.

Como se percebe, o Programa Estratégico nem sequer é muito ambicioso e até foi feito pelo executivo anterior. Mas convém ler porque é o que vigora neste município e é o programa que orienta toda a reabilitação na ARU do centro (se houve alguma alteração recente não é pública nem foi posta em discussão pública).

A pior solução…

O recém-anunciado projeto para o velho cinema S. Geraldo é uma boa notícia? Não propriamente. O que foi anunciado faz sumir de vez qualquer ideia de recuperar a enorme sala para fins culturais. Independentemente da qualidade arquitetónica do projeto apresentado, apenas se manterá vagamente uma memória do espaço antigo. Na prática, será uma praça de alimentação com um hotel. Chamar-lhe mercado cultural é, por isso, uma ilusão. Seria o mesmo que transformar o relvado e a pista do estádio 1º de Maio num parque de estacionamento e anunciar que a cidade ganhava um equipamento desportivo.

Não confundamos, claro, o interesse da cidade com o do proprietário. O dono – que no caso é a arquidiocese – não conseguiu manter o cinema a funcionar comercialmente e tem todo o direito de para lá imaginar os projetos que quiser e anunciá-los publicamente. Diferente é saber se a cidade acha esses projetos relevantes e se não tem outros que se lhes sobreponham.

Desde 1896 que se veem imagens em movimento em Braga. O Cinema São Geraldo foi, porém, a primeira sala bracarense especificamente destinada a esse fim. A estreia em 1950, com o filme “Cruzeiro de Férias” (Luxury Liner), terá impressionado pelo luxo, pela nitidez da imagem e pela qualidade do som. Dispunha de tribuna e plateia com cerca 850 lugares, funcionou até aos anos 90 e miraculosamente ainda lá está hoje, decadente mas pouco alterado.

E também convém não exagerar: o São Geraldo não é um edifício monumental e é produto da cidade enfadonha que Braga era há 70 anos. A sua relevância hoje reside no potencial enquanto equipamento já construído, num ambiente dos anos 50 que se perpetuou e na localização estratégica junto ao Theatro Circo. E nunca é demais relembrar o gravíssimo erro de restauro do Theatro Circo: construiu-se uma dispendiosa segunda sala subterrânea que, todavia, por razões estruturais jamais poderá funcionar em simultâneo com a sala principal (num país decente, quem assim desperdiçou dinheiros públicos, teria de se explicar muito, muito bem).

Numa altura em que há verba e instrumentos disponíveis para a regeneração urbana, o São Geraldo podia ser, pelo menos, essa segunda sala simultânea do Theatro com pouco investimento. Isto se não se equacionassem projetos mais ambiciosos como um centro cultural público (como há um mês defendia o Fernando Coelho no Entre Aspas), municipal ou da freguesia, ou até privado (seguindo o exemplo do São Mamede em Guimarães lembrado em tempos pelo Rui Ferreira). Ou uma intervenção mais arrojada devolvendo-nos o equilibrado largo setecentista através da reposição da imponente fachada do Convento dos Remédios.

Mais uma vez, a Câmara mostra-se uma entidade amorfa, não sendo capaz de imaginar nem de discutir os inúmeros cenários com a cidade e desperdiçando o potencial daquele espaço. Para que serviu afinal o concurso de ideias? E para que vai servir o Conselho Estratégico para a Regeneração? Para entreter?

O Cinema São Geraldo pode ser muitas coisas – e esta é das piores para Braga. Um Executivo preocupado, se nada conseguisse fazer para impedir o desaparecimento de um espaço cultural, ao menos mostrava-se descontente. Por isso, é lamentável ver a Câmara a dar a bênção a mais uma destruição definitiva na cidade. Ou como dizia há dias Ricardo Araújo Pereira, imitando uma análise liminar de Tino de Rans: “eu tinha bregonha!”

FOTO: imagem da sala principal do São Geraldo em 2005 (editada para sobrepor o fotograma na tela)
TRAILER: regressar ao São Geraldo de 1950 a bordo do Luxury Liner www.youtube.com/watch?v=jzKVwA9VjdI

Luís Tarroso Gomes