Salvar o S. Geraldo

Conhecemos há alguns dias o projecto para o antigo cinema S. Geraldo apresentado pela Diocese de Braga, sua proprietária. O projecto, independentemente das suas virtudes, nomeadamente a de recuperar um grande edifício de centro histórico, contempla um elemento de absoluta importância, que os cidadãos de Braga e da região não podem ignorar. A concretizar-se, Braga perderá a sua primeira e mais emblemática sala de cinema que, apesar de se encontrar fechada há cerca de vinte anos, mantém, praticamente, todos os seus aspectos funcionais.

Sendo certo que ao proprietário está conferida toda a legitimidade para decidir o futuro do edifício, não deixa também de ser verdade que este não deve ignorar o sentimento de toda uma comunidade que quer ver valorizado e recuperado um local que tanto espaço ocupa na memória colectiva.

No mesmo sentido, ao município não restará apenas o papel de espectador. Muito menos poderá refugiar-se no papel de mero fiscal ou emissor de licenças. Não duvido que não existam soluções fáceis, nem certezas absolutas, mas estou convencido de que é possível fazer muito mais. O Presidente da Câmara não pode, por isso, fazer ouvidos de mercador, não pode ignorar as vozes que se levantam e se preocupam com o futuro do cinema S. Geraldo. Se assim fizer, também ele ficará na história como responsável pela decisão que levará à perda da histórica sala de cinema.

Mais, aceitar a demolição do cinema São Geraldo não se trata apenas de um acto de irreparável perda para o património social e cultural. Trata-se, mais ainda, de uma oportunidade perdida para devolver à cidade uma sala de espectáculos que poderia afirmar-se como um espaço alternativo e multifuncional, facilmente adaptável aos mais variados tipos de iniciativas, complementando assim a oferta do Theatro Circo.

Ora, Ricardo Rio, que até inscreveu no seu programa eleitoral o “reforço do relacionamento com a Diocese”, tem aqui uma óptima oportunidade para o colocar em prática. Pés ao caminho, que se faz tarde, e, pelo que se tem lido, é o próprio Arcebispo que reconhece não ter ouvido propostas alternativas, nomeadamente por parte do município.

Outra coisa, bem diferente, é Ricardo Rio não querer intervir para alterar o projecto por, efectivamente, concordar com as ideias nele expostas, entre as quais figuram um hotel e espaços comerciais. E, se assim for, que o diga, mas que reconheça que isso é absolutamente contrário ao seu discurso de valorização dos equipamentos culturais da cidade. Aliás, há bem pouco tempo, na apresentação dos vários projectos no âmbito do concurso de ideias para a regeneração da Avenida da Liberdade, foi difundida a ideia de criação de um quarteirão cultural, no qual se incluía o cinema S. Geraldo como equipamento estratégico e, pelo que li e ouvi, a ideia terá agradado a Ricardo Rio.

Importa também perceber se Ricardo Rio acha que Braga já tem actividade cultural que chegue e equipamentos culturais suficientes. É que, se assim for, estamos ainda pior do que imaginava. Ou se, pelo contrário, tem ainda dúvidas, pode aproveitar a ocasião para se afirmar como um presidente que sabe ouvir o associativismo e as vozes da cidadania, considerando que são já vários os apelos para que a câmara intervenha no sentido de se suspender o projecto, impedindo a demolição do antigo cinema, discutindo novas ideias e eventuais soluções. É que a participação dos cidadãos na política é isso mesmo: serem ouvidos quando têm algo a dizer e serem tidos em conta. A participação não se pode resumir a um mero exercício administrativo plasmado num qualquer orçamento participativo, por muito virtuoso que este até possa ser.

Neste momento é inadiável a movimentação de todos em defesa do Cinema S. Geraldo como equipamento cultural, para que, desde já, se consiga sensibilizar a Diocese de Braga para a suspensão do projecto e o município para o seu papel interventivo na definição do modelo de cidade que queremos. Depois, virão as propostas, no respeito pelos interesses de todas as partes envolvidas, mas, acima de tudo, no garante máximo de um projecto cultural que tanta falta faz a Braga.

Carlos Almeida

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