O direito à cultura em Braga

A construção da cidade é mais do que um processo de ocupação do espaço físico, é também o reflexo de um exercício coletivo dos seus habitantes e uma expressão de cidadania. É o nosso campo de relações, como dizia Lefebvre, por isso deve guardar as nossas memórias e os nossos relatos comuns. É não só por isto, mas também, que se justifica o investimento na cultura, que nos permite usufruir de locais de encontro; é não só por isto, mas também, que tanto as autarquias como os cidadãos devem proteger os espaços que guardam a história das nossas cidades; é não só por isto, mas também, que não podemos deixar o Cinema de São Geraldo perder a sua função primordial de local ao serviço da cultura. Em Braga habituamo-nos a assistir a renovações físicas e funcionais de edifícios, ouvindo sempre como justificação a adaptação dos mesmos às “novas necessidades”. Hoje, a necessidade da nossa cidade é, mais do que tudo, tornar acessível aos seus habitantes o seu património simbólico.

No diálogo que tem gerado a reabilitação do São Geraldo, uma ideia tem dominado: em Braga, os projetos culturais são avaliados de acordo com as despesas imediatas que geram, rejeitando quaisquer argumentos que visam apostas na cultura que não tenham retorno imediato em euros. É importante dizer que esta é uma postura contrária ao que se tem assistido em várias cidades europeias, onde os investimentos na cultura têm aumentado, não apenas por motivos sociais como também económicos. A cultura, tal como outros setores convencionais, tem capacidade de gerar riqueza e emprego. O setor cultural tem um forte peso na economia de várias cidades, em vários locais do planeta, sejam elas de pequena ou grande dimensão.

O montante canalizado para a cultura é assim um importante indicador para avaliarmos a dimensão das apostas autárquicas neste domínio. Assim, a análise dos dados publicados pelo Instituto Nacional de Estatística permite-nos encontrar claras diferenças na importância que a cultura tem para algumas cidades da Região Norte. Dividindo as despesas efetuadas pelas câmaras municipais em cultura e criatividade (bibliotecas e arquivos, património cultural, livros e publicações, artes visuais, artes de espetáculo, audiovisual e multimédia, publicidade, artesanato e arquitetura) pelo número de habitantes de cada município, podemos obter os dados que estão no seguinte gráfico. Apesar de ser espetável que o Porto – a segunda maior cidade do país – e Guimarães – Capital Europeia da Cultura em 2012 – apresentem um investimento cultural maior do que o de Braga, a diferença é, na realidade, abismal. Em 2014, as despesas de Guimarães chegaram aos 40€ por habitante, o Porto passou dos 37€, Famalicão registou 25€ e Barcelos ultrapassou os 13 €. Já Braga, uma das maiores cidades de Portugal, ficou abaixo dos 6€.

Às evidências destes dados junta-se uma clara falta de quantidade e diversidade da oferta cultural em Braga durante a maior parte do ano. É verdade que a oferta cultural na cidade tem aumentado, ainda que timidamente, devido à reabertura do Theatro Circo, ao funcionamento do GNRation, e a outras iniciativas pontuais, que contrastam com uma época anterior em que a cultura em Braga passava quase exclusivamente pelas salas de cinema das grandes superfícies comerciais. Não parecem no entanto estar esgotadas as possibilidades de investir mais na cultura em Braga. De facto, investe-se pouco comparando com cidades próximas, e notoriamente a oferta cultural existente é, no mínimo, deficitária.

Uma solução para o edifício do São Geraldo não pode passar pela criação de mais um espaço meramente comercial, mas sim pela criação de um local de partilha da memória e do património comum dos Bracarenses. Em Braga, estamos todos cansados de soluções sem alternativa, da proliferação de locais vedados ao usufruto da nossa cidade, da importação de modelos pré-fabricados e da privação do nosso direito à cidade e à sua cultura. Ainda que o São Geraldo tenha saído dos hábitos culturais da cidade há muitos anos, é parte da nossa história e guarda uma enorme diversidade de relatos passados. O São Geraldo reúne hoje as condições necessárias para ser palco de muitos mais momentos futuros da cidade, isto se mantiver espaço para receber os seus cidadãos, continuando a cumprir funções de cariz cultural. Em Braga estamos todos cansados de assistir à construção de uma não-cidade, sem espaço para a nossa identidade e memória(s).

Inês Gusmán

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s