Em defesa do Cinema S. Geraldo

Ao longo das últimas décadas habituámo-nos a ver o património histórico e arquitectónico da cidade ser degradado e “requalificado” sem critério, o que conduziu, em muitos casos, a perdas irreparáveis para a cidade e para a comunidade bracarenses. As reconversões dos edifícios monumentais da cidade foram invariavelmente mal sucedidas porque guiadas por estratégias de lucro de curto-prazo que acabaram por se refletir em avultados prejuízos materiais e imateriais para a cidade.

Poderíamos citar os exemplos do Palacete Matos Graça, o antigo edifício dos Correios, as construções da Rua Justino Cruz ou o património arqueológico da época romana repetidamente desprezado e destruído tanto em intervenções públicas como particulares. Em todas as situações, a comercialização rápida dos espaços prevaleceu sobre a valorização estratégica de médio e longo-prazo, deixando para a cidade uma pesada e triste herança em termos arquitectónicos, urbanísticos e, muitas vezes, sociais e culturais.

O modelo de “shopingzificação” (perdoem o neologismo) dos centros das cidades resultou na produção de espaços híbridos, apelativos pelo factor de novidade durante alguns meses, que acabam por se converter em autênticos territórios de descontinuidade na fruição dos espaços urbanos. Primeiro ficam vazios de pessoas e, consequentemente, de iniciativas económicas viáveis para depois se transformarem em espaços degradados, problemáticos e sem qualquer utilidade coletiva.

O Cinema São Geraldo foi inaugurado no dia 1 de Junho de 1950, tratando-se da primeira sala exclusivamente dedicada ao cinema que surgiu na cidade de Braga. Para além do monumental Theatro Circo, é a única sala de espetáculos de Braga que tem projeção e importância verdadeiramente nacionais. Durante os anos em que esteve fechado e votado ao abandono, várias vozes se levantaram em defesa do Cinema São Geraldo mas a verdade é que nunca se realizou um debate sério e ponderado sobre as diferentes alternativas possíveis para o aproveitamento do seu potencial enquanto equipamento cultural.

Se Braga se quer assumir como uma referência económica e cultural na Península Ibérica, é urgente que as opções políticas não promovam uma obstinada repetição de alguns erros do passado. Tal como as políticas de estímulo ao desenvolvimento económico local promovidas pela Investe Braga em conjunto com a Universidade do Minho têm seguido os exemplos mais bem sucedidos internacionalmente também as opções no domínio patrimonial e cultural se devem inspirar nos programas de reabilitação que fizeram de cidades de média dimensão uma referência no panorama europeu.

Preservar o património, resistir à “shopingzificação” dos centros urbanos e criar ou reabilitar equipamentos culturais que coloquem a cidade no patamar que todos ambicionamos são a chave para o sucesso. No caso do Cinema São Geraldo, a situação é muito facilitada pelo facto do proprietário ser a Igreja Católica, uma instituição que tem uma longa experiência na preservação do património histórico e arquitectónico, que não tem uma visão de curto-prazo na valorização dos seus recursos financeiros e que tem relações privilegiadas com o poder municipal.

Haja vontade política para não repetirmos os erros do passado.

Publicado no Correio do Minho.

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